domingo, 17 de outubro de 2010

Voltar a ser, existindo...

Adormeci a contar os soluços do vento, prolongando-o em espasmos de realidade, debruçado-me na penumbra da janela. Era confortável o clamo e derramado silêncio que se despia até meus pés. Havia uma estranha confortabilidade de me ter ali sozinha, confrontando-me comigo própria, mas esse era apenas o sinal de que estava ali e que algo era possível. Pensava que não iria durar muito esta estadia, este aprisionamento a uma morte prematura que faço nascer cada vez que me movo, a uma distância entre a minha pessoas e o espaço escuro que é somente vazio. Resgurado-me com o Inverno lá de fora. Sou o frio que chora o Inverno de agora e analiso os estádios da minha vida.
O silêncio estava cómodo. Coloquei uma música suave mas que se tornou num mero desconforto, como tudo o resto a minha volta. Acordes desordenados, ritmos largados a um acaso faziam da minha partitura um eterno fechar de olhos, uma eterna falta de controlo, uma insegurança. Fechar os olhos já não era tranquilidade, já não era aparente calma… Peguei num livro abandonado que se encontrava na cómoda, e saboreando página a página, tornei-me numa mera letra abandonada e liberta de cada palavras. As imagens à minha frente eram só devaneios cínicos e egoístas de me ver a mim mesma sozinha em vários sítios. Pensava nas ondas de um mar qualquer que desgastam a terra que tem o trabalho de se formar. Inquietudes passageiras talvez façam de mim este animal turbulento que é mais imagem do que paisagem. Sentia-me feliz ao ler cada palavra, ao sentir cada emoção num efeito autêntico de catarse e as palavras caiam como gotículas, abandonadas e deixadas. Tão somente restadas, quanto quantificadas. Sou mais uma delas, eu sei, mas a diferença é que me formo em todas elas e ao reflectir-me nessa mancha sou a paisagem que as integra. Deslizo entre a vontade de ser e o que já sou, esse pincel mascarado que com as lágrimas da cor pinta a sobeja tristeza que se adeja. As linhas inquietas desse todo igual. Mera paisagem, mera pintura desfigurada, da mais certa a mais verdadeira…

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sombra de Espelhos

Os minutos pesam silenciosamente a tua chegada numa inquietude atroz. Roubam a vontade de ser ao tempo, demorando-te enquanto não registas a tua presença junto das minhas pernas frias. Resta o som demorado a meu lado, o Inverno estival célere que se cansa de ser ele mesmo por não sentir o afago dos teus olhos. Às vezes tudo funciona assim, nesse mecanismo quase resoluto em fazer aceitar as coisas que nos perseguem na vida, nesta existência em mim já marcada à nascença, pela diferença de ser quem sou.
Desafogo saber que voltaste. Que o vento escuro que norteava a minha estrada, era apenas nevoeiro claro que firmava o teu caminho. Ouvia de mansinho os teus pés de prata, aconchegando-me com a sombra que a tua imagem delineava no meu corpo. Tudo são desvarios cansados que formas, sem dizer uma única palavra. Ventos sombreados entre dedos abandonados em recordações pálidas por nunca viverem em si mesmo, cansadas.
Revolto a almofada, símbolo de minha castidade pela tua ausência, e desnudo pensamentos só nossos, entre lençóis ou nas passagens frias que a realidade cria sem sentirmos. E esgotante ter que me apaixonar pela imagem que deixaste, percorrendo o único pedaço de chão que pisaste ou agarrando-me aos beijos que em vão me destes. Beijos que já não são nossos. São do porto que te levou e do bordou que te abandonou. Do mar que nunca e meu e sempre e daquele que o há-de ter...


Roubei a vontade de navegar ao mar
vontade fervorosa de me abater em tua fronte rochosa
sou o sal que abandonado se entrega ao passado
pescador em terra, nesse mar que me encerra

...Dispo o sal que me cobre sem saborear
a fina areia que me cobre o rosto em desgosto
o cansaço deitado nas ondas embalado
essa tristeza que me consome, e que em meus ombros dorme...

"Soturno Pescador" por VRM

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Da cor do nada (parte XIV)

Hoje debati-me a estudar as passagens que o tempo faz na vida.. a escutar-lhe as curvas e estar atento às suas modificações. Passagens são passagens... sao luzes rasgadas, pela noite apagadas... sao horas passadas pela passagem terminadas... sao ondas que o mar nao aproveita e que o abandono se afeita. Tudo anda, tudo tem o seu movimento cíclico e torturante de se seguir ao que passou. Não se manifestando nem mostrando complacência por quem passa, decide seguir e arrastar idades, circunstâncias, experiências, marés, feridas... arrasta, suporta, carrega e leva em sua demanda... O desperdício de tempo que temos em lhe dar importância, em lhe conceder atenção quando o vimos nos relógios, no tempo, no clima, ao espelho, nas paisagens que passaram, nas recordações que ficaram... Começo a reflectir agora sobre isto e percebo que o tempo me sujeitou à suas discretas inventivas, aos pequenos pormenores que me mostra no espelho e me ressurgem na alma como parte de uma existência descontrolada..
Levantei-me, soerguendo-me ao sol e escutando o pesar pesado que se acometia naquela sala... O cortinado estava fixo na sua rigidez absoluta e o tempo que se distanciava por entre os tecidos escuros, estava pesado e desenhava uma luz estranha no chão... aquela luz era diferente... nunca a tinha visto desta forma.. pode ser ate uma chamada, quem sabe o ressurgimento de algo ou até o invocar de alguma coisa? Tempo, tempo, tempo...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Da cor do nada (Parte XII)

O sonho tem os dias contados. A realidade ja marca limites, os sentidos ja são fracos e as emoções, essas, vivem debaixo das lágrimas de cada um. E nos momentos de querer de cada um, que vejo que a terra não e redonda. Tudo e liso. Tudo começa. Tudo acaba. Nem o tempo que nos segue, nem o passado que nos persegue, nem o futuro que nos irá seguir são tempos marcados do instante mais que distante. E apenas a janela fechada, da porta grande que cada um marca nas suas realidades!

domingo, 2 de maio de 2010

Da cor do nada (Parte XI)

No limiar condescendente das coisas que não se sabem, vi erguer-se o teu vulto.
O tempo era o outro. Pertencia à altura dos cansaços. Dos momentos confusos do pensamento.
Sabia que eras tu, mesmo não tendo a certeza. Mesmo não sabendo de cor o espaço em que caminhavas...
Estava deitado. Estava cansado. Quando estamos deitados, o sangue que outrora se expande pelo nosso corpo inteiro, marca reunião só num ponto e nesse mesmo ponto se fixa.
Era estranho.Era original.
Soava dentro de mim, algures em mim, o metrónomo enérgico que todas as noites nascia com o olhar...
O teu corpo estava lá. A tua imagem também, mas o que mais luz tinha eram as mãos cadavéricas que antes tocavam no piano da minha imaginação. Como se escutasse pormenorizadamente cada palpitação que o meu coração desenhava.
Lembrei-me do escuro das lições. Do subterfúgio pesado em que se findava cada nota e logo começava outra...
Baladas, prelúdios, nocturnos... Senti Chopin nos meus dedos pequenos e na nossa ligação, no esgar brando que nos fazia chorar em compassos lentos e demorados com o medo de nos perdermos...

Da cor do nada (Parte X)

Há quem chame saudade àquilo a que eu chamo distância. O espaço sem fim, com curvas e contracurvas, cansa-me, desgasta-me… saber que algo está longe e que cada vez o perto é mais distante, revira-me os pensamentos e torna-os apenas impressões. Aquilo que realmente sinto existe. Está longe por de trás do horizonte, mas existe… Isso existe, ou pelo menos há na minha mente, vagueando entre as paredes mal coladas... na minha imaginação perdida que denomino de loucura…

domingo, 25 de abril de 2010

Da cor do nada (Parte IX)

É estranho, talvez até inconcebível... mas hoje só consigo pensar em Farinha... O cheio, o toque, a força... Tudo na farinha é humano. Molda-se, transporta-se e quando magoada revolta-se e manda-nos para os olhos o seu pó. A sua integridade, o seu estatuto. Se lhe mandamos água, fica a boiar, a pensar e acorda sempre cá em cima. Se dela fazemos uso, e lhes damos a consideração necessária, cresce e vive dentro de nós mesmos. Há farinhas deliciosas, amargas, umas com sabor a menos, outras com sabor demasiado... Como as pessoas... Por hoje escrevo-te isto, pode ser que o amanhã de amanhã seja mais claro que o escuro de ontem e que o nada de hoje. Uma hipótese, talvez uma sugestão. Nunca uma certeza. Considero-te...